Aprender para Viver
Você tem condições de buscar algo novo?
Jornadas exaustivas de 16 horas de trabalho por dia, sob vigilância constante e ameaças; com um descanso inadequado, sem tempo livre e distantes da convivência familiar.
No final do século XIX, esta era a realidade vivida por muitos trabalhadores das fábricas de algodão de Bombay (atual Mumbai), na Índia, onde o capitalismo industrial buscava controlar não apenas o tempo de trabalho, mas a vida inteira dos operários, reduzindo-os a peças substituíveis da engrenagem produtiva.
Essa condição extrema levou muitos desses trabalhadores, por meio de muita luta, a reivindicar pelo menos o período da noite como espaço de autonomia. Após peleias custosas, eles conseguiram reduzir a carga horária das mulheres para 11 horas e a das crianças de até 14 anos para 7 horas de trabalho por dia. Consegue imaginar um troço desse?
Imagem de AkshayaPatra Foundation por Pixabay
Nesse mesmo período, surgiu um movimento silencioso, porém verdadeiro e profundo: a busca pela educação.
Apesar de exaustos, milhares de operários passaram a utilizar as poucas horas livres para aprender a ler, escrever e pensar de forma crítica. Escolas, muitas vezes criadas pelos próprios trabalhadores, tornaram-se centros de formação intelectual, social e política. Ali, o estudo não era um luxo, mas uma forma de resistência contra a desumanização do trabalho.
A educação surge como tábua de salvação, uma possibilidade de romper com a condição imposta pela pobreza, pela casta e pela exploração dos “senhores” das fábricas. Para aquelas pessoas, tornar-se um “trabalhador letrado” significava deixar de ser apenas força física e afirmar-se como um ser pensante.
Ao aprender a ler e escrever, aqueles indivíduos não buscavam apenas melhores oportunidades profissionais — eles buscavam dignidade, consciência e voz.
Ao protegerem seu tempo para ler, refletir e aprender, eles transformaram o cansaço em resistência e a educação em um caminho de emancipação. Para os operários de Bombay no século XIX, estudar à noite, depois de uma jornada extenuante, era o grito de recusa a uma vida limitada.
Assim que terminei de ler, tive a plena certeza de que essa história habitaria meus pensamentos por dias. Ela me trouxe a consciência, o privilégio que tenho de viver num tempo onde é possível acessar tecnologias, métodos de ensino e conteúdos para uma infinidade de saberes. É doideira pensar que, décadas atrás, pessoas se sacrificavam para obter uma educação básica.
Além de não protegermos nosso tempo, gastamos com coisas inúteis e sem sentido. Atualmente temos acesso a todo tipo de informação e formas de ensino com enorme facilidade e, na maioria das vezes, nem damos valor.
Não é de hoje que a aprendizagem me chama a atenção, mas, nas últimas semanas, venho focando mais nesse tema. Sossegando minha curiosidade por meio de leituras e pesquisas, o entendimento é o seguinte: aprender coisas novas é muito mais do que adquirir habilidades para o mercado de trabalho.
A história dos operários de Bombay transmite a ideia de que absorver conhecimento envolve responsabilidade e coragem com a própria vida.
Responsabilidade
De acordo com o pensador dinamarquês Søren Kierkegaard, o indivíduo é o único responsável por “tornar-se si mesmo”. Ou seja, cada um deve buscar se desenvolver de acordo com suas condições e necessidades. A aplicação dessa ideia no aprendizado acontece da seguinte forma: se você não é uma criança, o seu aprendizado é responsabilidade sua.
Caso não assuma essa responsabilidade, tenha plena certeza de que outra pessoa ou agente social não o fará por você. Até porque não assumir responsabilidades já é um tipo de escolha.
“Pensar que, por um instante, pode-se manter a personalidade em branco, ou que, a rigor, pode-se interromper e estancar o curso da vida pessoal, é uma ilusão. A personalidade já está interessada na escolha antes de escolher, e quando a escolha é adiada, a personalidade escolhe inconscientemente, ou a escolha é feita por poderes obscuros dentro dela.”
— Søren Kierkegaard, Ou isso, ou aquilo: um fragmento de vida.
Sendo assim, você só pode aprender se escolher querer. E, caso não queira, terá uma vida conduzida por quem quis.
Aprender é querer.
Esse “querer aprender” está para além da sala de aula; é um aprendizado que se origina da vontade da própria pessoa em dar continuidade à sua vida.
Porém, querer assumir responsabilidade de forma isolada não se sustenta. Também é preciso coragem.
Coragem
Aprender envolve ter coragem suficiente para assumir riscos.
Por exemplo: uma criança que está aprendendo a andar de bicicleta, em algum momento, terá de arriscar o equilíbrio sem as rodinhas de apoio. Mesmo com acompanhamento, chegará a hora em que ela precisará de coragem para confrontar o medo de cair. É justamente esse confronto que a faz se desenvolver.
Em Ecce Homo, Nietzsche define a coragem como medida de valor:
“Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Isso se tornou para mim, cada vez mais, a verdadeira medida de valor. O erro (a fé no ideal) não é cegueira, o erro é covardia... Toda conquista, todo passo adiante no conhecimento, é o resultado da coragem, da dureza consigo mesmo, da limpeza consigo mesmo.”
Nietzsche enxergava a coragem como pré-requisito para o conhecimento. Ele acreditava que a maioria das pessoas preferem mentiras confortáveis a verdades dolorosas. Portanto, aprender exige coragem para destruir as próprias ilusões.
Buscar aprender coisas envolve tanto o risco, quanto a responsabilidade.
O que acontece é que, quando somos crianças, temos outras pessoas nos incentivando. Na vida adulta, o ritmo é outro: você tem que fazer isso por conta própria. Será preciso criar as próprias regras e ter coragem para assumir o risco das próprias escolhas — a tal “verdadeira medida de valor”.
Começar
Aprender é parte do viver.
Acredito que o desenvolvimento intelectual e cognitivo é fundamental para nos sentirmos vivos. Se deixarmos de usar nossa “massa craniana”, seja por medo ou pelo achismo de que “não preciso saber mais nada”, estaremos assinando nosso atestado de óbito. O corpo pode até estar vivo, mas o fôlego de vida já partiu para outro endereço cosmológico.
Desenvolver faculdades é se mostrar presente para a vida. Sempre temos que aprender algo novo. Sempre! É clichê, eu sei... mas é a verdade.
Não podemos limitar nosso aprendizado ao período escolar e universitário. Tais períodos fornecem apenas o básico; depois deles, cada indivíduo tem que “dar seus pulos” para não ficar apartado da vida.
Pare por um instante e reflita na insanidade do mundo em que vivemos: não há instituições que deem conta da velocidade das transformações humanas. Se não assumirmos de forma corajosa a responsabilidade pelo nosso desenvolvimento, teremos uma vida “algoritimizada”, mecanicista e ditada por terceiros.
E aqui chegamos a um ponto importante: nosso desenvolvimento precisa ir além da técnica.
René Descartes dizia que a única coisa que aprendeu na escola foi saber o quanto era ignorante. Por isso, ele desenvolveu seu próprio método, viajou e buscou conhecimento por conta própria.
Obviamente, Descartes foi radical, e não penso exatamente como ele, mas concordo que é preciso ir além do ensino obrigatório. O ser humano não pode se limitar a funções robóticas; para isso, já existem tecnologias superiores.
Precisamos pensar no ato de aprender como algo ligado à vida.
Para ilustrar: pense em alguém que pratica corrida. Para realizar seu esporte ela acaba esbarrando em saberes como fisiologia, biologia e nutrição. A pessoa não precisa ser profissional, mas deseja aprender para praticar da melhor maneira possível algo que lhe faz bem.
Percebe? Nem tudo precisa ser monetizável; podemos nos instruir para nos mantermos em movimento, pela satisfação de estar vivo.
Sempre há espaço para o novo. Obviamente, existem questões sociais e dificuldades de contexto, mas hoje, com a tecnologia e os recursos disponíveis, sempre dá para desenvolver em alguma área. Se você consegue ler este texto agora, tem as condições mínimas para buscar algo novo.
O exemplo dos trabalhadores de Bombay me mostrou que desenvolver nossa capacidade intelectual não serve apenas para conseguir empregos melhores. Serve principalmente para viver com dignidade e consciência de vida.
Obrigado por ler.
Um passo por vez, seguimos.
Antes de partir
A incrível historia das escolas noturnas de Bombay encontrei no site aeon.co
O link da matéria completa esta aqui Bombay nights
Vale muito a leitura.


